A situação de Portugal nos Relatórios Mundiais de Felicidade (ONU): Diagnóstico e Recomendações
- Jorge Humberto Dias

- 16 de jan.
- 5 min de leitura

1. Ranking de Portugal (últimos anos)
Segundo os dados mais recentes (2024):
2024: 55.º lugar — 6,03 pontos
2023: 56.º lugar — 5,97 pontos
Tendência: Portugal tem vindo a subir consistentemente desde 2013 (quando tinha apenas 5,10 pontos).O valor de 2024 (6,03) é o mais alto registado desde que há dados.
A posição no ranking confirma que Portugal:
Está fora do top 50, mas na primeira metade da tabela global.
Tem melhorado lentamente, mas continua abaixo de países europeus comparáveis (como por exemplo, Espanha está em 32.º).
2. Como Portugal se compara com o mundo
O valor português de 2024 (6,03) está acima da média mundial (5,56).
Continua, no entanto, longe dos países nórdicos, que dominam os primeiros lugares do ranking há anos (Finlândia, Dinamarca, Islândia...).
3. Diferenças geracionais em Portugal
O World Happiness Report 2024 introduziu uma análise por idade. Nesta dimensão:
Portugal surge na 63.ª posição no ranking da felicidade dos jovens.
Os mais velhos tendem a reportar maior felicidade que os mais novos.
Isto segue a tendência global identificada pela ONU:
Os jovens estão a ficar mais infelizes em quase todas as regiões do mundo.
4. O que explica a evolução da felicidade em Portugal?
Os relatórios da ONU utilizam 6 fatores estruturais:
PIB per capita
Apoio social (social support)
Esperança média de vida saudável
Liberdade de fazer escolhas de vida
Generosidade
Perceção de corrupção
Embora não existam análises específicas detalhadas por país em todos os anos, a tendência portuguesa sugere:
Melhorias económicas moderadas pós‑2013.
Reforço da saúde e bem-estar (Portugal tem bom desempenho na esperança média de vida).
Apoio social forte, característica típica de países do sul da Europa.
Contudo, os desafios persistem:
Baixa perceção de liberdade económica em comparação com o norte da Europa.
Altos níveis percebidos de corrupção, que continuam a puxar o índice para baixo.
Redução da felicidade entre jovens, ligada a preocupações com habitação, salários e futuro socioeconómico.
5. Evolução histórica de Portugal (2013–2024)
Dados consolidados mostram:
2013: 5,10
2016: 5,12
2018: 5,41
2020: 5,91
2022: 6,02
2024: 6,03 (máximo histórico)

Tendência: crescimento lento mas contínuo.
6. O que estes dados significam para estudos sobre felicidade (incluindo o PROJECT@)
Dado o trabalho que tem sido desenvolvido em Portugal na área da felicidade organizacional e tem em atenção o nosso foco no método PROJECT@ do professor Jorge Humberto Dias, estes dados ajudam a:
Posicionar Portugal num contexto global comparativo.
Identificar áreas críticas para intervenção (jovens, perceção de corrupção, liberdade pessoal).
Reforçar a pertinência de programas de bem-estar educativo e corporativo, já que a felicidade em Portugal cresce com políticas consistentes de apoio social e qualidade de vida.
Deixamos aqui um conjunto de recomendações práticas, dirigidas a quatro níveis — Governo, Escolas, Empresas e Indivíduos — fundamentadas nas tendências sobre Portugal identificadas nos World Happiness Reports e nas fontes consultadas.
As sugestões abaixo respondem diretamente aos desafios que surgem dos dados.
A. Sugestões para o Governo de Portugal
A.1. Políticas para os Jovens (desafio crítico identificado no WHR)
Os dados mostram que Portugal está na 63.ª posição na felicidade dos jovens, uma queda significativa motivada por fatores como precariedade e dificuldade de habitação.
Propostas:
Programa nacional de habitação jovem, com arrendamento acessível e incentivos a cooperativas habitacionais.
Reforma das carreiras iniciais, garantindo salários de entrada menos desajustados do custo de vida.
Apoio à saúde mental, reforçando psicólogos no SNS e criando centros regionais de bem-estar juvenil.
A.2. Reforço da Confiança Institucional
A perceção de corrupção continua a ser uma variável que baixa a felicidade.
Propostas:
Implementar políticas de transparência radical: dashboards públicos com uso de fundos públicos.
Criar um Observatório Nacional de Integridade Pública com auditorias regulares abertas ao público.
A.3. Investir no Bem-estar como Política Pública
O WHR reforça que países mais felizes têm políticas explícitas de bem-estar.
Propostas:
Criar um Ministério do Bem-Estar e Desenvolvimento Social, inspirado em modelos dos países nórdicos.
Integrar métricas do World Happiness Report na avaliação anual das políticas públicas.
Adotar orçamentos de “well-being budgeting” (seguindo o modelo da Nova Zelândia).
B. Sugestões para as Escolas
As escolas são fundamentais porque os jovens portugueses estão entre os mais afetados pela queda de felicidade.
B.1. Educação para a Felicidade (que já estamos a desenvolver na DGAE/IU Atlântica)
Sugestões alinhadas com o nosso trabalho:
Implementar programas de literacia felicitária desde o 1.º ciclo.
Integrar projetos como Happy Schools e Happy Universities, baseados no método PROJECT@.
Criar espaços semanais de diálogo e reflexão para promoção de bem-estar.
B.2. Saúde Mental no Ambiente Escolar
Equipas multidisciplinares permanentes (psicólogos, mediadores, terapeutas ocupacionais, educadores sociais, animadores, filósofos, etc.).
Programas de prevenção de ansiedade e burnout escolar.
Projetos de tutorias horizontais entre alunos (peer support).
B.3. Escola como Comunidade Social
Incentivar atividades de voluntariado e solidariedade (conhecidas por aumentar felicidade).
Reforçar práticas de cooperação em vez de competição na avaliação e nos projetos.
C. Sugestões para as Empresas
Aqui deixamos propostas alinhadas com as evidências do WHR:
C.1. Valorizar mais o Bem-Estar no Trabalho
Os países mais felizes apresentam elevados níveis de apoio social e perceção de autonomia.
Propostas:
Implementar modelos de flexibilidade laboral reais (horários híbridos, 4-day-week opcional).
Criar ambientes de trabalho com propósito claro e cultura de reconhecimento.
Integrar o método PROJECT@ como ferramenta de diagnóstico interno de felicidade laboral.
C.2. Liderança Ética e Transparente
A perceção de corrupção impacta negativamente a felicidade nacional; nas empresas, o equivalente é a perceção de injustiça.
Propostas:
Formação de lideranças em ética aplicada.
Processos internos transparentes de progressão e remuneração.
C.3. Saúde Mental Corporativa
Acesso a psicologia empresarial, coaching filosófico e programas de mindfulness.
Monitorização contínua do bem-estar das equipas (questionários trimestrais: Q100 PROJECT@, por exemplo).
D. Sugestões para as Pessoas Individualmente
Com base nos fatores que mais influenciam a felicidade a nível global:
D.1. Investir em Relações Sociais
O WHR destaca consistentemente o “social support” como uma das variáveis mais importantes.
Dar mais tempo aos amigos, à família e à comunidade.
Participar em grupos locais, voluntariado, associações culturais.
D.2. Saúde Física e Mental
Criar rotinas regulares de atividade física.
Manter cuidados preventivos de saúde mental (diário emocional, acompanhamento quando necessário).
D.3. Autonomia e Propósito
Identificar propósito pessoal (utilizando ferramentas filosóficas ou modelos como PROJECT@).
Reduzir tempo em atividades que não acrescentam sentido (ex.: consumo passivo de redes sociais).
D.4. Práticas de Bondade e Generosidade
A generosidade aumenta a felicidade tanto de quem dá como de quem recebe (WHR destaca este efeito).
Pequenos atos diários de bondade.
Participação em iniciativas solidárias.
Conclusão
As evidências mostram um país que melhora lentamente, mas com desafios claros:
A felicidade dos jovens está a cair.
Persistem problemas estruturais de confiança e liberdade percebida.
O bem-estar precisa de ser assumido como prioridade transversal.
As sugestões que apresentámos visam precisamente melhorar estes pontos — do Governo ao nível individual — com base nos dados recentes e nos fatores que mais influenciam a felicidade segundo os WHR da ONU.
Lisboa, 16/01/2026.
Jorge Humberto Dias



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